15/08/2011 - Atualizado em 15/08/2011 00h08

Saudades de Pequim!!

O intercâmbio de um mês para Pequim foi um choque cultural de primeira, um entendimento e compreensão de segunda e um amor de terceira

por Jaqueline Pivato Pereira

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"O intercâmbio de um mês para Pequim foi um choque cultural de primeira, um entendimento e compreensão de segunda e um amor de terceira."


Ir para a China em épocas de real valorizado não é uma escolha muito comum entre os estudantes em geral. Não imaginei que visitaria Pequim em 2011, e para mim as coisas aconteceram muito rápido! Eu pedi para sair do trabalho, estava na pressão do fim de semestre da faculdade, esperando algumas notas serem lançadas e no maior stress de "quero férias" do mundo!! O prazo para se inscrever no intercâmbio era até o dia 31 de maio e foi neste dia que eu me decidi e fechei a viagem.


Um amigo meu já tinha viajado para China neste mesmo programa e ele me disse que foi muito bom, aderi ao mesmo por curiosidade e pelo fato de envolver um diploma voltado à área de Relações Internacionais, meu curso de formação na faculdade.


Pois bem, fui! Ficamos cerca de 8 horas no avião até Johannesburgo, tivemos um passeio por Soweto e depois mais umas boas 12 horas (ou algo assim) até Hong Kong, para só então, após outro voo de mais ou menos 5 horas, chegarmos em Pequim! A viagem é longa e cansativa, passamos mais de 24 horas juntos: saímos dia 1 de Julho de São Paulo e chegamos em Pequim só no dia 3!! O medo da mala extraviada era o único que pairava na cabeça, literalmente suja e sem banho, de todos nós!


Enfim, chegamos! A primeira semana foi de uma super adaptação! Logo que entramos no quarto, a cama tinha um colchãozinho mínimo daqueles que você sente a madeira nas costas enquanto dorme, o café da manhã tinha gyoza de feijão doce (ainda não sabíamos que o nome disso era Jiaozi) e o clima da cidade em julho é realmente abafado e grudento! No fim da primeira semana eu percebi que as minhas costas são tortas e que eu precisava de uma cama de colchão mínimo, mas ainda assim eu poderia voltar pra casa satisfeita por conhecer a Muralha, a Cidade Proibida e algumas partes da cidade!


As semanas foram passando e a vontade de ficar em Pequim aumentou e eu vi que eu não gosto de feijão doce, mas que a comida chinesa não é só o feijão doce! É também a berinjela com um molho estranho muito bom, o pato de Pequim com um arrozinho esperto, a vagem meio que frita que eu até hoje não decorei o nome e um monte de outros quitutes que depois da primeira semana passavam na mesa rotatória e eram devorados por mim e por outros colegas!


A China estranha que enxergamos no primeiro dia se tornou algo que deixou saudades e que nos fez ver o quanto somos resistentes a uma cultura diferente da nossa. Tem gente que ainda está processando a informação, mas a verdade é que tudo foi muito bom e o clima abafado naquele bom estilo "sauna" se tornou mais um motivo para não querermos voltar para o frio sem graça de São Paulo.


Os chineses são um povo muito receptivo! Verdade que em Pequim você não encontra muita gente falando inglês, um susto para quem já viajou para outros lugares e sabe que sempre tem alguém que te entende, mas ainda não entendendo nada do que você fala eles estão sempre ali tentando te ajudar ou te agradar. Achamos estranho que em alguns lugares existem crianças sem fralda com a calça aberta e bumbum de fora dando as mãos às mães ou até fazendo suas necessidades a céu aberto... Também não estávamos acostumados com a famosa "fossa chinesa", um buraco no chão onde as pessoas fazem suas necessidades, que em alguns lugares tinha descarga e em outros não... Não achamos muito comum quando íamos a algum lugar e muitos chineses queriam tirar fotos conosco apenas por sermos diferentes e de outro país... Mas no fim, tudo isso foi um aprendizado de respeito e compreensão ao conhecer um lugar tão diferente do que vivemos. Aos poucos eu vi as pequenas e significantes demonstrações de simpatia e amizade de pessoas que eu nem se quer entendia o que falavam.


Sempre imaginei a China como um país de cultura e costumes diferentes e interessantes, mas também como um lugar onde as questões políticas afetassem de maneira direta e prejudicial à vida e o dia-a-dia de seus habitantes. A verdade é que pelo menos em Pequim, as pessoas convivem com o sistema político muito bem em sua maioria, aceitam as condições que lhes são impostas e vivem suas vidas da melhor maneira que podem. A rotina da cidade é muito agitada durante 24 horas, os taxistas são muito doidos e o trânsito é uma loucura! Só não é mais parecida com São Paulo nesse aspecto por que é mais perceptível a poluição e a loucura do trânsito, além do que é uma cidade muito mais segura.


A movimentação é realmente eminente. Existem bares, casas noturnas e tudo mais que uma cidade grande tem direito! No fim de semana tínhamos problemas com o trânsito às 10 horas da noite! Só não ficávamos tão estressados por que sempre tinha alguém dirigindo por nós, e, por conta dos passeios, estávamos quase sempre dormindo no banco do ônibus ou dos taxis de tão cansados.


O metrô da cidade é outro lugar inesquecível para quem teve a oportunidade de usá-lo algumas vezes. A baldeação de uma linha para outra demorava em média 10 minutos, dependendo da estação e da hora, pra completar íamos todos amassadinhos junto com um número absurdo de chineses ao nosso redor, tive ataques de riso quase todas as vezes que pegamos o metrô pensando no que a minha mãe faria na minha situação! O gel antisséptico era nosso amigo inseparável e de todos os momentos. A experiência de pegar o metrô quando estávamos duros, ou quando preferíamos gastar os trocados do taxi em outro lugar era realmente muito legal, recomendo pela experiência... Mas se você não gosta de ser espremido e adora se sentir limpo: não vá! Pegue um taxi!


Sem dúvidas o taxi é o meio de transporte com o melhor custo beneficio para andar na cidade, pelo menos para nós estrangeiros. Cada taxi aceita até quatro passageiros, os lugares mais distantes da cidade davam uma conta de RMB 40,00 a RMB 60,00, o que dividindo entre todos os que utilizavam o taxi dava mais ou menos R$2,50 a R$3,75. Valia muito a pena! Andar a pé na cidade às vezes também é muito bom, claro que o calor atrapalha um pouco, mas também é válido. Quantas vezes não saímos de algum lugar às 4 da manhã e voltávamos a pé sem medo de sermos assaltados ou qualquer coisa do tipo? Pequim é realmente bastante segura, sinto muita falta disso aqui em São Paulo.


Em relação à faculdade, também fomos muito bem recebidos. Logo no primeiro dia nos ofereceram um almoço de boas vindas com muitas comidas diferentes e muito gostosas. Tínhamos aulas todos os dias de manhã e algumas vezes a tarde. No alojamento que estávamos hospedados, e que também fazia parte da faculdade, conhecemos russos, dinamarqueses, italianos, portugueses, cabo-verdianos, franceses, americanos, enfim, estudantes de muitas partes do mundo que estavam lá há um ano, seis meses ou fazendo o mesmo programa de um mês que fizemos. Mais do que as aulas e as discussões em sala, tivemos a oportunidade de compartilhar nossas percepções da China e do mundo com jovens na mesma situação que estávamos, e, muitas vezes, em meio a muita festa e diversão.


O intercâmbio de um mês para Pequim foi um choque cultural de primeira, um entendimento e compreensão de segunda e um amor de terceira. O amor nem sempre é a primeira vista, e o nosso se mostrou e só se intensificou durante o tempo que passamos na China. Chateações ocorrem em todas as viagens, mas se colocarmos em uma balança todos os prós de vivenciar este país veremos que a viagem valeu muito a pena e assim como eu, muitos de meus colegas também pretendem voltar para estudar, trabalhar ou morar por um tempo em Pequim, a partir deste pouco e muito que conhecemos dessa cidade que se tornou tão querida para nós!

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