22/3/2010
É claro que a crescente presença dos chineses no Continente africano tem levantado críticas na Europa e nos EUA sobre a "colonização da África pela China"
A China, gigante que desde 1990 cresce explosivamente e sem ajuda externa, até 2025 deverá manter um ritmo de 8% ao ano para atender as suas necessidades internas.
E essas necessidades aceleram-se movidas, em grande parte, por fantástica urbanização1 - os chineses estão seguindo maciçamente para as cidades e a previsão é de que, em 2025, 2/3 da população chinesa sairá da zona rural.
Ora, essa urbanização exige, entre outras coisas, a construção e/ou ampliação de cidades, água encanada,saneamento básico, eletricidade, metrôs, ferrovias, escolas, hospitais, centros comerciais e residências (milhões de blocos de apartamentos e de prédios verticalizados).
Daí, o fantástico aumento da demanda chinesa por matérias-primas fora de seu próprio solo e mar, tais como aço, cobre, alumínio, chumbo, níquel, zinco,minério de ferro, algodão, borracha e outros. E daí, portanto, a abertura de suas fronteiras em busca de recursos naturais na África, Ásia e América Latina.
Até o início da década de 1990, entretanto, a República Popular da China ainda era predominantemente agrícola e necessitava de matérias-primas, de capitais (para criar modernas empresas e dar trabalho à sua numerosa população) e de mercado externo para vender sua produção e conseguir capital para dinamizar sua economia interna.
Sua produção barata e em massa disseminou o "made in China" pelo mundo. Mas, com a crise de 2008 e a retração da demanda dos países desenvolvidos (especialmente dos EUA), a China voltou-se para o Brasil, Rússia, Índia e Oriente Médio, inundando-os de objetos a preços imbatíveis.
O Centro Atacadista de Yiwu2 (leste da China), o maior do mundo, tornou-se conhecido no Brasil como "paraíso do R$ 1,99". Cerca de 500 mil contêineres deixam anualmente Yiwu com metade de sua produção (ou US$ 3 bilhões), sendo a outra metade destinada ao mercado doméstico chinês. São famosos os quarteirões temáticos de Yiwu, com cerca de 150 mil lojinhas que exibem amostras de 1,7 milhão de produtos (bijuterias,óculos, papelaria, material de escritório, malas,objetos de viagem, roupas etc), distribuídos em 4,5 milhões de m2 (do tamanho aproximado de 3 parques do Ibirapuera, em São Paulo).
A China na África
O engajamento da China na África significa, principalmente,a mobilização de múltiplos atores econômicos públicos e privados para o financiamento de projetos de grande envergadura de interesse dos chineses, mas que, ao mesmo tempo, geram importantes polos de dinamismo econômico na África, provocando alterações fundamentais na estrutura da economia africana.
É claro que a crescente presença dos chineses no Continente africano tem levantado críticas na Europa e nos EUA sobre a "colonização da África pela China." Tais críticas, em grande parte, refletem o temor do Ocidente de perder a África e outras regiões ricas em matérias-primas, e omitem o passado em que europeus e norte-americanos desorganizaram toda a estrutura local africana com a implantação de um sistema de ocupação baseado em trabalhos forçados.
Aliás, The Economist, importante porta-voz dos negócios britânicos e americanos, admite que a China na África é uma presença interessante para ambas em vários aspectos: a China precisa de petróleo e minerais tão necessários à expansão de seu vigoroso crescimento econômico; a África precisa de "infraestruturas" há muito tempo negligenciadas. E o que é muito significativo, essa troca ocorre sem interferência da China na política dos países da África.
Por outro lado, aumentam também os indícios de diminuição progressiva da influência norte-americana na África. Por exemplo, as longas pesquisas de quatro anos da Africom para instalar seu QG militar na África foram recusadas como "uma decisão coletiva", segundo o ministro sul-africano de Defesa, Mosiuoa Lekota, e acabaram indo para a Alemanha.3 E a China, desde 2008, tornou-se o primeiro parceiro comercial da África do Sul, enquanto é declinante seu movimento de exportação para os EUA.
Uma possível unipolaridade EUA-China não se concretizou e os dirigentes chineses mostraram prudência e moderação ao defender um "mundo harmonioso e multilateral" sem blocos agressivos, sem confrontação e sem corrida armamentista.
E assim, aceitando o lucro capitalista, os chineses "nadaram rapidamente, mas sem fazer ondas"... Seu imenso mercado atraiu investimentos de grandes firmas de vários países.
Entre as firmas norte-americanas destacam-se a Hewlett-Packard, Coca-Cola, Boeing, General Motors, Ford etc. Outras, como a General Electric, Microsoft, Intel e Motorola, criaram seções de pesquisa na China.
Pode-se generalizar dizendo que as multinacionais americanas voltam-se para negócios rentáveis com a China. O exemplo mais repetido é o Wall-Mart, amaior cadeia de magazines dos EUA e do mundo – que confirma comercializar 75% de produtos originários da China.
E politicamente, o recente "financiamento" da dívida norte-americana foi decisivo para reforçar a posição da China como atual detentora de grande parte de dólares em certificados do Tesouro dos EUA.
Enquanto alguns países lamentam a intensificação das relações entre a China e a África, outros a enaltecem como promissora da participação de um "Continente esquecido" na economia do mundo globalizado. E também como o fim da marginalidade da população africana carente sem interferência na política interna de seus países.
O próprio Financial Times, depois da Conferência ministerial sino-africana em 2009, em Sharm el-Sheikh, escreveu que a China provou ter mais condições de "criar prosperidade nos países do outro lado do globo terrestre", inclusive em comparação com semelhantes tentativas dos outros BRICs - Brasil, Índia e Rússia.
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1 A previsão é de que, em 2025, 15 cidades terão mais de 25 milhões habitantes, 22 cidades ultrapassarão 10 milhões e mais de 20 cidades terão cerca de 5 millhões de habitantes.
2 Yiwu foi um dos primeiros lugares da China a criar fábricas de fundo de quintal, na década de 1980; no início de 1993, tornou-se uma empresa estatal.
3 A respeito de um QG dos EUA na África, tornou-se folclórica a questão que o governo zambiano colocou ao ministro de Negócios Estrangeiros dos EUA: "Vocês gostariam de ter um elefante no living?"
Diva Benevides Pinho é professora Emérita da FEA-USP, economista e advogada.
Boletim Econômico Fipe
Fonte: Diva Benevides Pinho
