17/3/2010
Na realidade, essa queda foi bastante pequena, quando comparada à de muitos outros países do mundo
A queda do Produto Interno Bruto brasileiro, em 2009, não foi das mais cruciais, apesar de surpreender muitos daqueles que lidam com fenômenos econômicos e estatísticos.
Na realidade, essa queda foi bastante pequena, quando comparada à de muitos outros países do mundo. Não obstante, os economistas dos bancos brasileiros, no início do ano passado, ainda haviam sido bem mais otimistas, ao projetarem um crescimento da ordem de 2,40% para o PIB brasileiro naquele ano.
Não obstante, alguns fatores foram bastante decisivos para evitar uma queda de maior nível para a nossa economia, principalmente os vinculados à redução do Imposto sobre Produtos Industrializados incidente sobre vários produtos de grande importância para a indústria nacional, como automóveis, televisores e a chamada "linha branca".
Por outro lado, a China continuou a demonstrar uma excepcional firmeza no desenvolvimento do seu Produto Interno Bruto, com um crescimento iniciado e mantido em elevado nível há muitos e muitos anos, de forma que a economia chinesa, se continuar a crescer com percentuais anuais superiores a 7%, em menos de três décadas deverá se transformar na primeira economia do mundo, pois os Estados Unidos dificilmente deverão crescer mais de 3% ao ano, em média, a partir deste ano de 2010.
Agora, vamos dissertar sobre a economia brasileira e sobre o que tem que ser feito, ao nosso ver, para que continuemos a fazer parte dos BRIC’s e do novo contexto da economia mundial.
Existem inúmeras variáveis que têm que ser consideradas por ocupantes de cargos de todos os níveis de governo do Brasil. Essas variáveis têm sido constantemente objeto de discussão e de exposição por empresários, técnicos e especialistas, visando o crescimento e o desenvolvimento da nossa economia.
De início, nossa opinião é a que temos que promover cada vez mais os investimentos, quer no setor público, quer no setor privado. Ao se fazer uma análise, observa-se que, no setor privado, em virtude das necessidades criadas tanto pelo mercado quanto pela concorrência, a maioria dos investimentos tem sido feita dentro dos prazos necessários, de acordo com os valores e com as capacidades projetadas. Entretanto, no nível do setor público, tais investimentos há anos não vêm sendo efetuados dentro dos parâmetros necessários, o que pode comprometer seriamente o crescimento da economia brasileira.
A infra-estrutura de nosso país, onde deveriam ser inseridas estradas de melhor qualidade, transporte ferroviário, navegação de cabotagem e, acima de tudo, educação, saúde e segurança, continua ainda sofrendo de sérias falhas e grandes distorções. Nossos investimentos públicos deveriam ser, no mínimo, equivalentes a 22% do Produto Interno Bruto. Porém, já há algum tempo não temos investido mais de 17%, ou de 18% a cada ano, o que sem dúvida é claramente insuficiente. Tal fato demonstra uma grande falta de planejamento e de coordenação governamental, além de erros cometidos no exercício de funções de gerenciamento e de administração, os quais não são vistos no Brasil há muitos anos.
Uma outra variável que também contribui para uma taxa de crescimento não muito auspiciosa é a carga tributária. No Brasil, a carga tributária tem variado ultimamente entre 35% e 38% do PIB. E boa parte desse percentual vem sendo utilizada para a cobertura de despesas correntes. Na China, o peso dos tributos não chega a 18%.
Um outro fator que tem que ser analisado diz respeito à taxa de juros que tem sido paga pelo governo brasileiro – que pesa de forma inconteste no bolso dos contribuintes – e que continua sendo das mais elevadas do mundo, mas sem a menor necessidade, pois há poucos países que possam competir com o Brasil, quer em termos de taxa, quer em termos de confiabilidade.
E a taxa de juros, além de contribuir para a redução da disponibilidade de recursos com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino técnico médio e de nível superior, que são fundamentais para alimentar o crescimento da infra-estrutura e da produtividade da economia brasileira tem, de certa forma, e em virtude da aplicação de recursos de habitantes de terceiros países em títulos emitidos no Brasil, gerado uma desnecessária e preocupante valorização do real. E essa valorização, como pode se observar, tende a contribuir para uma grande redução nas exportações brasileiras de produtos industriais da mais elevada tecnologia.
Mais uma vez, destacamos a política cambial exercida pela China, cujo governo há algumas décadas desvalorizou o yuan (renmimbi) e tem mantido aquela moeda desvalorizada em função do dólar americano e do euro, o que facilita e incentiva as exportações daquele país para praticamente todos os países do mundo. Em contraposição, em virtude da valorização do real e à exceção das "commodities", as exportações brasileiras continuam em ritmo de crescimento inadequado e as importações de produtos de consumo, de produtos elétricos e eletrônicos, de produtos químicos e de outros que utilizam um nível mais elevado de tecnologia, estão em franco crescimento.
Nossas projeções para a balança comercial brasileira, neste ano de 2010, são de US$ 175 bilhões de exportações. Entretanto, a China, em 2008, ultrapassou a casa de US$ 1 trilhão e trezentos bilhões. E, por incrível que pareça, há pouco mais de duas décadas os números das exportações chinesas e das exportações brasileiras eram muito semelhantes.
Realmente, novamente enfatizo que ainda temos muito o que aprender. E que temos que cobrar de nossos governantes o cumprimento dos compromissos de crescimento e de desenvolvimento que os mesmos devem exercer, para o bem do nosso país e do nosso povo.
Paulo de Albuquerque é economista.
Fonte: Paulo de Albuquerque
